O templo sagrado da capoeira angola

Postado em Uncategorized em janeiro 23, 2009 por abcangola

O templo sagrado da capoeira angola. É assim que muitos capoeiristas definem a ABCA – Associação Brasileira de Capoeira Angola. Fundada em 1987, em Salvador-BA, a entidade reúne os antigos mestres desta manifestação cultural afro-brasileira, e se tornou uma referência mundial em termos de preservação das tradições ancestrais desta arte-luta.  

“ABCA é a casa que representa a capoeira angola. É um lugar onde o capoeirista tem que se sentir bem, onde podemos discutir, trocar idéias… Um lugar para aprender mais, porque ninguém sabe tudo” afirma Mestre Virgílio, presidente da entidade. Iniciado na capoeira angola na década de 50 por seu pai, o célebre Mestre Espinho Remoso, Virgílio Maximiano Pereira também foi aluno dos mestres Caiçara e Paulo dos Anjos. Viveu intensamente as rodas de rua de seu pai na Jaqueira do Carneiro e dá aulas de capoeira angola há mais de 30 anos na Fazenda Grande do Retiro. Com a humildade que lhe é característica, ele lidera um profundo processo de renovação da instituição, que está reformando seu estatuto social e organizando seu registro para a elaboração de projetos e parcerias de apoio e incentivo aos guardiões da tradição ancestral. 

A falta de estrutura em sua sede não desanima seus guardiões, como afirma o tesoureiro, Mestre Pelé do Tonel: “A ABCA representa para nós um precioso conhecimento, uma grande nata de mestres que têm méritos e história pra contar, e para mim é uma riqueza. Depende de nós sabermos valorizar esta casa cheia de ouro que é a capoeira angola”. Iniciado  na capoeira em 1960, Samuel Souza foi alunos dos mestres Zé Mário e Caiçara, e acompanhou este durante muitos anos, em seus shows folclóricos. Apresenta um espetáculo com uma técnica única, em que joga capoeira com tonéis, ganhando daí seu apelido. 

A gestão atual da ABCA conta também com a participação dos mestres Augusto Januário (Vice-Presidente), Odilon (Diretor Jurídico) e Tonho Matéria (Diretor de Patrimônio e Marketing), além dos jornalistas angoleiros Lucia Correia Lima (Diretora de Projetos e Comunicação Social) e Paulo Magalhães (Secretário).

 

Duas décadas de ginga

 

Em 3 de julho de 1987, o jornal A Tarde trazia estampada a notícia: “ABCA terá que mostrar sua malícia”. A pequena matéria anunciava os resultados da primeira eleição da entidade, em que venceu a chapa “Evolução” e o Mestre João Pequeno foi eleito Presidente, Paulo dos Anjos Vice, Mário Bom Cabrito Tesoureiro, Nô Diretor Técnico e Renê Diretor Social. Mestre Canjiquinha, malandro, rouba a cena e aparece na foto, que deveria ser de João Pequeno. (Durante boa parte da década de 80, a coluna Capoeira trazia semanalmente anúncios de rodas e eventos, além de debater polêmicas da capoeiragem. Nos anos 2000, em que a capoeira é considerada patrimônio cultural, percebe-se um retrocesso em termos de divulgação cotidiana na imprensa local). 

“Vivíamos um momento inédito, de discutir e organizar os capoeiristas angoleiros de forma legal, perante os órgãos públicos. Além disso, depois de cada reunião havia uma roda, momento único de troca em que podíamos beber da fonte de sabedoria que são os antigos mestres”, conta Mestre Renê. Nascido em Teodoro Sampaio, Renê Bittencourt foi iniciado na capoeiragem por Mestre Canjiquinha, e dirige atualmente a ACANNE – Associação de Capoeira Angola Navio Negreiro.

Depois de Mestre João Pequeno, a ABCA teve os mestres Moraes, Barba Branca e Curió em sua presidência. Em 1996 foi criado o Conselho de Mestres, instância máxima da entidade, formado por mestres angoleiros com mais de 50 anos. Mestre Gildo Alfinete e Mestre Bola Sete foram presidentes do Conselho, cargo ocupado hoje por Mestre Nô.

As reuniões, na época da fundação, aconteciam no Forte Santo Antônio, no Centro Esportivo de Capoeira Angola – Academia de João Pequeno de Pastinha. Com o tempo, as reuniões passaram a ser no Instituto Mauá, funcionando depois em uma casa cedida na Rua do Passo. Com a ajuda do IPAC, a ABCA passou a utilizar um casarão na Rua Gregório de Matos nº 38, no coração do Pelourinho, em frente ao Teatro Miguel Santana (onde funciona o Balé Afro) e o Afoxé Filhos de Ghandy. 

“Nossa casa é pobre de dinheiro, mas rica de sabedoria. É o templo sagrado da capoeira angola. Recebemos a Rainha da Dinamarca, o Príncipe de Gales e o Presidente de Guiné-Bissau, além de participar dos 500 anos do Brasil e criar a Roda da Paz. A ABCA hoje é reconhecida internacionalmente” comenta Mestre Gildo Alfinete, membro do Conselho de Mestres. Discípulo de Mestre Pastinha, com quem se iniciou na Capoeira Angola em 1959, Gildo Lemos Couto possui o maior acervo existente sobre Mestre Pastinha e o Centro Esportivo de Capoeira Angola. 

Na loja da ABCA, capoeiristas do mundo inteiro podem encontrar berimbaus, pandeiros, atabaques, agogôs, camisas, livros, revistas e vídeos sobre capoeira. “A lojinha existe há muitos anos, passam dezenas de pessoas do mundo todo, todos os dias”, comenta Mestre Neco, responsável pelas vendas. Membro do Conselho Fiscal, Manoel Marcelo dos Santos foi iniciado na capoeira por Mestre Canjiquinha, em 1959, no Taboão, e dá aulas há 38 anos no Colégio Góes Calmon, em Brotas.

Todas as sextas-feiras, às 19:30, acontece a roda da ABCA, aberta a todos os capoeiristas que estejam abertos à sua forma tradicional, conduzida pelos antigos mestres com o rigor e respeito próprios desta manifestação ancestral.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.